Neguinho da Beija-Flor ganha musical que transforma 50 anos de Carnaval em memória, fé e música
A trajetória de Neguinho da Beija-Flor, um dos intérpretes mais emblemáticos da história do Carnaval carioca, chega aos palcos em um espetáculo que atravessa música, memória, fé e episódios marcantes de sua vida. O musical revisita a caminhada do artista desde a infância até a consagração como uma das vozes mais reconhecidas da Marquês de Sapucaí.
A montagem parte de uma trajetória construída ao longo de décadas de dedicação ao samba. Neguinho ingressou na Beija-Flor em 1975 e permaneceu como intérprete oficial da escola por 50 anos, até sua despedida dos desfiles em 2025. Durante esse período, tornou-se associado à identidade sonora da agremiação e eternizou o grito “Olha a Beija-Flor aí, gente!”, uma das marcas mais conhecidas do Carnaval brasileiro.
O espetáculo não se limita, porém, aos momentos de glória. A narrativa recupera episódios pessoais, dificuldades, conquistas e acontecimentos que ajudaram a formar o artista antes mesmo de ele assumir o nome pelo qual se tornou conhecido nacionalmente. A intenção é apresentar o homem por trás do intérprete e mostrar como sua relação com o samba foi construída desde muito cedo.
A fé também ocupa espaço importante na dramaturgia. O título “Do Samba à Fé” traduz justamente uma das dimensões que atravessam a história de Neguinho: a relação entre espiritualidade, resistência e música. O espetáculo procura conectar essas experiências individuais à trajetória de um artista cuja carreira se desenvolveu paralelamente à própria transformação do Carnaval carioca.
Ao longo da montagem, canções que fazem parte do repertório de Neguinho ajudam a conduzir a narrativa. O samba deixa de funcionar apenas como trilha sonora e passa a ser elemento dramatúrgico, capaz de marcar diferentes fases da vida do intérprete e recuperar lembranças associadas à Beija-Flor, à comunidade de Nilópolis e à Sapucaí.
A despedida de Neguinho dos desfiles, em 2025, encerrou um ciclo de meio século à frente do carro de som da Beija-Flor, mas não representou o fim de sua atividade artística. O cantor deixou a função de intérprete oficial da escola e passou a concentrar-se também em sua carreira musical fora do Sambódromo.
Essa distinção é importante para compreender o momento retratado pelo musical: trata-se menos de uma história de aposentadoria e mais da passagem de um ciclo para outro. A voz que durante décadas conduziu sambas-enredo diante de milhares de pessoas continua ligada à música, agora sob novas formas de apresentação e de narrativa.
O espetáculo também ganha significado por registrar em cena uma trajetória que se confunde com a memória do Carnaval brasileiro. Neguinho não foi apenas intérprete de sambas-enredo: tornou-se uma referência cultural associada à Beija-Flor e à Baixada Fluminense, atravessando diferentes gerações e mudanças na própria estrutura do Carnaval.
Ao levar essa história para o teatro, “Do Samba à Fé” transforma uma carreira construída na avenida em uma narrativa sobre identidade, pertencimento, superação e permanência. É um retrato de um artista que fez do samba profissão, linguagem e forma de vida — e que, mesmo depois de deixar a Sapucaí, continua a cantar a história que ajudou a construir.

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