“Tarsila, a Brasileira”: musical com Claudia Raia revela a mulher por trás de uma das maiores artistas do modernismo nacional
Espetáculo percorre a trajetória de Tarsila do Amaral, entre a efervescência cultural dos anos 1920, as paixões, as rupturas e as adversidades que atravessaram sua vida
A história de uma artista não se resume às obras que atravessam gerações. Por trás das cores, das formas e das imagens que se tornam símbolos de uma época, existem experiências pessoais, conflitos, afetos e recomeços que também integram a construção de um legado. É sob essa perspectiva que o musical Tarsila, a Brasileira, protagonizado por Claudia Raia, revisita a trajetória de Tarsila do Amaral, uma das figuras fundamentais do modernismo brasileiro.
A montagem chega a Porto Alegre entre os dias 15 e 18 de outubro, no Teatro da Fiergs, propondo um mergulho na vida da pintora para além de sua consagração artística. A narrativa percorre tanto o ambiente cultural que impulsionou sua projeção quanto os episódios íntimos que marcaram sua existência, revelando uma mulher cuja trajetória foi atravessada por transformações, perdas e desafios.
Entre a consagração artística e a dimensão humana
Nascida em 1º de setembro de 1886, em Capivari, no interior paulista, Tarsila do Amaral construiu uma obra decisiva para a afirmação de uma identidade visual brasileira. Trabalhos como Abaporu (1928), Antropofagia (1929) e Operários (1933) permanecem entre as referências mais expressivas de sua produção e ajudam a compreender as diferentes preocupações estéticas e sociais que atravessaram sua carreira.
Sua participação no movimento modernista aproximou a artista de nomes como Anita Malfatti, Mário de Andrade, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade. Ao lado deles, integrou o célebre Grupo dos Cinco, associado à renovação artística e intelectual que ganhou força no Brasil a partir da Semana de Arte Moderna de 1922.
Entretanto, a imagem consagrada de Tarsila nem sempre contemplou a complexidade de sua vida pessoal. Reservada em determinados aspectos de sua intimidade, a pintora também enfrentou rupturas afetivas, dificuldades financeiras e mudanças profundas que contrastaram com o prestígio alcançado por sua obra.
É justamente essa dimensão menos conhecida que o musical procura explorar. Em vez de apresentar apenas uma sucessão de acontecimentos biográficos, o espetáculo constrói um arco dramático que aproxima a personagem histórica de suas vulnerabilidades, evidenciando as contradições entre reconhecimento público e experiência privada.
Claudia Raia assume o desafio de interpretar Tarsila
Além de protagonizar a montagem, Claudia Raia também assina a produção do espetáculo. A iniciativa surgiu a partir de um convite de Tarsilinha, sobrinha-neta da pintora, que desejava levar a história da tia-avó aos palcos em um musical.
A proposta, segundo o relato publicado pelo Correio do Povo, estava condicionada à possibilidade de revelar aspectos menos conhecidos da personalidade de Tarsila, para além da figura elegante e emblemática que costuma ocupar livros de arte e exposições.
A interpretação exige da atriz a articulação entre presença cênica, pesquisa histórica e compreensão das nuances emocionais da personagem. O resultado busca apresentar uma mulher que não pode ser definida exclusivamente por sua genialidade artística, mas também pelas experiências que moldaram suas escolhas e sua visão de mundo.
Jarbas Homem de Mello interpreta Oswald de Andrade, escritor modernista e companheiro de Tarsila durante parte de sua trajetória. A relação entre os dois ocupa espaço importante na narrativa, sobretudo por representar o encontro entre vida afetiva, criação artística e as transformações culturais daquele período.
Uma narrativa que atravessa o amor, as rupturas e as perdas
A dramaturgia acompanha Tarsila a partir de seu retorno ao Brasil, em 1922, após um período de estudos em Paris. Nesse contexto, a artista passa a integrar um ambiente intelectual efervescente, marcado pela experimentação estética e pela busca de novas formas de representar o país.
A narrativa, contudo, não se limita à ascensão artística. O rompimento de seu casamento com Oswald de Andrade e as dificuldades financeiras que atingiram sua família após a crise de 1929 compõem uma fase particularmente delicada de sua vida.
Essas experiências ampliam a compreensão de uma trajetória frequentemente celebrada por sua dimensão estética. A mulher que contribuiu para redefinir a representação visual do Brasil também precisou enfrentar circunstâncias que abalaram sua estabilidade pessoal e material.
Ao levar esses acontecimentos para o palco, Tarsila, a Brasileira propõe uma reflexão sobre a distância que pode existir entre a imagem pública de uma personalidade histórica e a complexidade de sua experiência individual.
Uma superprodução dedicada à arte brasileira
A montagem reúne uma equipe artística de diferentes especialidades. O texto e as letras originais são assinados por Anna Toledo, enquanto José Possi Neto responde pela encenação e direção de arte. A direção musical é de Guilherme Terra, e a coreografia e direção de movimento ficam a cargo de Alonso Barros.
O projeto cenográfico é assinado por Renato Theobaldo, com figurinos de Fábio Namatame, visagismo de Dicko Lorenzo, desenho de luz de Wagner Freire e desenho de som de Tocko Michelazzo. A direção de produção é de Bia Izar.
A dimensão da montagem evidencia a ambição de traduzir a trajetória da pintora por meio da integração entre música, interpretação, movimento e recursos visuais. O espetáculo transforma acontecimentos históricos e experiências pessoais em uma narrativa cênica que aproxima o público da personagem e do contexto cultural em que ela viveu.
O legado de Tarsila para além das telas
A permanência de Tarsila do Amaral na história da arte brasileira está relacionada à capacidade de sua obra de elaborar uma linguagem visual própria, incorporando referências culturais diversas e propondo novas formas de representar o país.
Sua produção atravessou diferentes fases, desde a investigação de uma identidade brasileira até a abordagem de questões sociais, sem perder a força expressiva que caracteriza suas composições.
Ao recuperar essa trajetória sob uma perspectiva biográfica e teatral, Tarsila, a Brasileira reafirma a importância de revisitar figuras históricas sem reduzi-las a símbolos imutáveis. Por trás da artista consagrada, existiu uma mulher que experimentou o amor, a desilusão, a prosperidade, a perda e a necessidade de reconstruir a própria vida.
Mais do que celebrar uma das grandes referências do modernismo, o musical convida o público a reconhecer a dimensão humana que acompanha a criação artística — e a compreender que, por trás de obras capazes de atravessar gerações, existem histórias tão complexas quanto as imagens que as eternizam.
SERVIÇO
Espetáculo: Tarsila, a Brasileira
Protagonista: Claudia Raia
Quando: 15 a 18 de outubro de 2026
Onde: Teatro da Fiergs, Avenida Assis Brasil, 8787, Porto Alegre (RS)
Ingressos: informações e vendas pela plataforma Uhuu.

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