Orquestra Petrobras Sinfônica estreia Réquiem dedicado aos povos Guarani-Kaiowá
A música de concerto brasileira abre espaço para uma obra que transforma a tradição do réquiem em instrumento de memória, denúncia e reflexão sobre os povos originários. A Orquestra Petrobras Sinfônica realiza, em 15 de setembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a estreia mundial de “Réquiem Guaraní-Kaíowá, Op. 33”, do compositor brasileiro Cyro Maurício Delvizio, com libreto de Gabriel Neves Camargo.
Sob regência do maestro Felipe Prazeres, o concerto reunirá mais de cem músicos e terá a participação dos solistas Michele Menezes, soprano; Noeli Mello, mezzo-soprano; Guilherme Moreira, tenor; e David Monteiro, baixo. Também integram a apresentação o Coral Brasil Ensemble-UFRJ e o Coral Infantojuvenil da UFRJ, ambos sob direção de Maria José Chevitarese.
Com cerca de 70 minutos de duração, o trabalho parte de uma forma profundamente associada à tradição da música sacra ocidental para deslocá-la em direção a uma experiência brasileira contemporânea. Em vez de utilizar a liturgia latina tradicional, Delvizio constrói um libreto original em português, incorporando termos da língua Guarani e referências ligadas à cosmologia e à experiência dos povos originários.
O resultado é uma composição dedicada aos Guarani-Kaiowá e aos povos brasileiros nativos, atravessada por temas como ancestralidade, território, perda, resistência e relação com a natureza. A própria estrutura da obra preserva referências do repertório litúrgico — com movimentos como “Kyrie”, “Credo”, “Dies Irae”, “Ofertório”, “Santo”, “Agnus Dei” e “In Paradisum” — enquanto incorpora elementos ligados ao universo indígena.
A dimensão visual também faz parte da construção do espetáculo. Durante a apresentação, serão projetadas fotografias em preto e branco realizadas pelos fotojornalistas Ana Mendes e Pablo Albarenga durante visitas a comunidades Guarani-Kaiowá. A imagem, portanto, não aparece apenas como ilustração: passa a integrar a experiência de escuta e a aproximar o público da realidade que deu origem à obra.
Segundo Cyro Delvizio, o projeto levou quase uma década até chegar ao palco. O compositor afirma que, durante esse intervalo, as circunstâncias que motivaram a criação da peça não deixaram de existir — razão pela qual o réquiem chega à cena também como uma convocação à reflexão sobre a relação da sociedade brasileira com os povos indígenas e com a natureza.
A escolha do réquiem como forma artística acrescenta uma camada simbólica à proposta. Historicamente associado à morte e à memória dos mortos, o gênero ganha aqui uma dimensão coletiva: lembrar não apenas indivíduos, mas histórias, territórios, culturas e vidas indígenas atravessadas por conflitos e perdas.
A estreia também reafirma uma das características da trajetória da Orquestra Petrobras Sinfônica: aproximar a tradição sinfônica de uma produção brasileira contemporânea. Fundada em 1975, a orquestra mantém uma programação que combina o repertório clássico com novas criações e diferentes possibilidades de diálogo com a sociedade brasileira.
No palco do Theatro Municipal, essa aproximação assume uma dimensão particularmente significativa. Ao utilizar uma formação sinfônica de grande escala para abordar a experiência dos Guarani-Kaiowá, a obra leva ao centro de uma das principais instituições da música de concerto do país uma discussão que ultrapassa os limites da sala de espetáculos.
Serviço
Réquiem Guaraní-Kaíowá, Op. 33
Orquestra Petrobras Sinfônica
Regência: Felipe Prazeres
Data: 15 de setembro de 2026, terça-feira
Horário: 19h
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Endereço: Praça Floriano, Rio de Janeiro
Duração aproximada: 70 minutos
Classificação: livre.

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