A Camisa 10 Sem Patrocínio: Marta e a Luta Estrutural pela Visibilidade do Futebol Feminino no Brasil
Por: Cinthya Ramos
Durante décadas, o futebol feminino brasileiro sobreviveu entre invisibilidade institucional, precariedade estrutural e ausência de investimento. Nesse cenário, Marta Vieira da Silva emergiu não apenas como a maior jogadora de sua geração, mas como símbolo político e cultural de transformação dentro do esporte brasileiro.
Seis vezes eleita melhor jogadora do mundo pela FIFA, Marta ajudou a redefinir os limites de reconhecimento internacional para atletas mulheres vindas do Brasil. Entretanto, sua importância histórica ultrapassa estatísticas, gols e títulos individuais. Ao longo da carreira, a camisa 10 tornou-se uma das vozes mais influentes na luta por igualdade estrutural dentro do futebol.Um dos episódios mais emblemáticos dessa trajetória ocorreu durante a Copa do Mundo Feminina de 2019, quando Marta entrou em campo utilizando chuteiras sem logotipos de marcas esportivas. O gesto fazia parte da campanha Go Equal, criada para denunciar a disparidade de investimentos e patrocínios entre homens e mulheres no futebol profissional.
A imagem da principal jogadora do planeta atuando sem patrocínio tornou-se símbolo internacional das desigualdades históricas da modalidade. Em entrevista reproduzida pela FIFA e pela ESPN, Marta afirmou que o objetivo era inspirar futuras gerações de atletas a lutar por reconhecimento profissional e independência financeira.
A trajetória da atleta também se conecta diretamente à história de repressão institucional sofrida pelo futebol feminino no Brasil. Entre 1941 e 1979, a prática da modalidade por mulheres foi oficialmente proibida no país por decreto estatal, sob a alegação de que seria “incompatível com a natureza feminina”.
Mesmo após a legalização, o futebol feminino permaneceu marginalizado durante décadas, com baixos salários, ausência de campeonatos estruturados e escassa cobertura midiática. O crescimento internacional de Marta, especialmente a partir dos anos 2000, passou a pressionar entidades esportivas brasileiras por mudanças institucionais mais profundas.
Nos últimos anos, a Confederação Brasileira de Futebol implementou medidas importantes impulsionadas pela crescente visibilidade da modalidade e pela pressão internacional da FIFA. Entre elas estão a equiparação das diárias pagas às seleções masculina e feminina e a exigência de que clubes da Série A mantenham equipes femininas para participação em torneios oficiais.
Além do impacto institucional, Marta também alterou profundamente a percepção cultural sobre o futebol feminino no país. Sua presença global abriu espaço para novas gerações de atletas brasileiras, incluindo nomes como Debinha, Ary Borges e Kerolin.Hoje, pesquisadores de sociologia do esporte frequentemente apontam Marta como uma figura central na profissionalização do futebol feminino latino-americano. Sua carreira simboliza não apenas excelência esportiva, mas resistência estrutural diante de um ambiente historicamente excludente.
Mais do que uma atleta consagrada, Marta tornou-se um agente de transformação social. Em um país onde mulheres foram proibidas de jogar futebol por quase quarenta anos, sua trajetória ajudou a reposicionar o esporte feminino como espaço legítimo de visibilidade, carreira e protagonismo cultural.
